Estudar mais não é estudar melhor: o cérebro tem dois modos de aprender

Há uma situação que me acontece com regularidade. Estou a tentar resolver algo, seja estruturar um texto, perceber um conceito, encontrar uma solução... e nada. Bloqueio total. Quanto mais me esforço, menos flui.

Depois saio para passear o meu cão. Sem expectativas, sem intenção de resolver nada. E é precisamente aí, algures entre uma árvore e outra, que a ideia aparece. Às vezes uma frase. Às vezes a estrutura inteira de um texto que não conseguia arrancar.

Durante muito tempo achei que era coincidência. Ou distração disfarçada de inspiração.

Não é. É o cérebro a trabalhar de outra forma.

O que é o modo focado?

O modo focado é o que a maior parte de nós associa a estudar. Estamos sentados, sem distrações, com um objetivo claro: ler o capítulo, perceber o conceito, resolver o problema. O cérebro está em modo de concentração deliberada, ou seja, analítico, linear, a seguir um fio de pensamento.

É o modo que nos ensinaram a valorizar. 

"Presta atenção." "Concentra-te." "Não te distraias." 

E faz sentido porque sem ele não conseguimos absorver informação nova, trabalhar um raciocínio complexo ou praticar uma competência.

O problema é que ficámos com a ideia de que é o único modo em que aprendemos. Que mais horas focadas equivale a mais aprendizagem. E não é bem assim. Aliás, esta foi a grande descoberta quando fiz o curso da Barbara Oakley e li o livro (que irei recomendar noutro blog post). 

O que é o modo difuso?

O modo difuso é o oposto, mas é igualmente importante. É o que acontece quando se desliga. Quando passeamos o cão, tomamos duche, dormimos, ou simplesmente olhamos pela janela sem pensar em nada de especial.

O cérebro não para. Continua a processar a informação que absorveu, mas de forma diferente, mais solta, mais livre. É nesse estado que consegue fazer ligações entre ideias que o modo focado, demasiado concentrado num único fio, não consegue ver.

A investigadora Barbara Oakley, autora do curso Learning How to Learn, um dos mais assistidos da história, dedicou anos a estudar exatamente isto. A conclusão é clara: alternar entre o modo focado e o modo difuso não é perder tempo. É uma parte essencial do processo de aprendizagem.

A história confirma-o. 

Salvador Dalí tinha um método peculiar: adormecia numa cadeira com uma chave na mão. No momento em que o sono chegava, a chave caía, o barulho acordava-o. E ele ia imediatamente registar as imagens e ideias que tinham surgido nesse estado entre o acordado e o adormecido. Thomas Edison fazia o mesmo, mas com esferas de metal. Dois génios que perceberam, intuitivamente, que o momento de desligar era também um momento de criação.

Por que precisamos dos dois

O erro mais comum é tratar o estudo como uma maratona. Quanto mais horas seguidas, melhor. Sair da secretária parece preguiça. Uma pausa parece rendição.

Mas o que a ciência mostra é o contrário. 

O modo focado e o modo difuso não competem, eles complementam-se. O primeiro absorve e trabalha a informação. O segundo consolida, reorganiza e encontra conexões que o foco intenso não permite. Precisas dos dois, pela mesma razão que precisas de inspirar e expirar.

Estudar horas a fio sem pausas não é dedicação, na verdade acaba por ser trabalhar contra o cérebro. A fadiga cognitiva acumula-se, a retenção diminui, e o pensamento criativo desaparece. De certo, todos já sentimos aquela sensação de ler a mesma frase três vezes sem perceber nada? É o sinal de que o modo focado esgotou o que tinha para dar.

A aprendizagem real acontece na alternância. Não é apesar das pausas — é por causa delas.

Dicas práticas — como activar o modo difuso intencionalmente

A boa notícia é que não precisamos de esperar que o modo difuso apareça por acaso. Podemos criá-lo intencionalmente.

  • Fazer pausas programadas: A técnica Pomodoro é um bom ponto de partida: 25 minutos de foco, 5 minutos de pausa. Não é uma regra rígida, dá para ajustar os tempos ao nosso ritmo. O que importa é a estrutura: períodos de concentração deliberada, seguidos de momentos em que o cérebro pode vaguear. É nessas janelas que o modo difuso entra em ação. 
    • As aplicações ou extensões que recomendo:
      • Focus Keeper — telemóvel (iOS e Android). Timer personalizável, metas de produtividade e gráficos de performance. Ideal para estudantes.
      • Forest — telemóvel e extensão de computador. Plantamos uma árvore virtual no início de cada sessão, ela cresce enquanto nos concentramos, e morre se sairmos da app. Tem o bónus de combater exatamente o problema que mencionamos no post: o telemóvel. A minha favorita! 

  • Dormir depois de estudar matéria difícil: O sono é talvez o modo difuso mais poderoso que existe. Durante o sono, o cérebro consolida o que aprendeu, elimina o que é irrelevante e fortalece as ligações entre conceitos. Estudar algo difícil antes de dormir não é má ideia — é estratégia.
  • Caminhar, tomar duche, fazer algo manual: Qualquer atividade que ocupe o corpo mas liberte a mente serve. Passear o cão, lavar a louça, dobrar roupa. Não é tempo perdido. É tempo de processamento.

O que não fazer: ir direto ao telemóvel. A pausa só funciona se for mesmo uma pausa. Trocar o estudo pelo scroll do Instagram não ativa o modo difuso. Basicamente, substitui um estímulo por outro, sem dar ao cérebro o espaço de que precisa. O telemóvel é o inimigo silencioso das boas pausas.

Da próxima vez que estivermos bloqueados, lembremo-nos disto: não é falta de esforço. Não é falta de inteligência. É o modo focado a precisar de passar o testemunho, como numa corrida de estafetas. 

Eu coloco o Ziggy na trela ou vou fazer crochet. E deixo o cérebro trabalhar à sua maneira.

E desse lado? Ideias para ativar o modo difuso? 



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